quarta-feira, 2 de março de 2016

apenas há penas para escrever...

Cena do filme Wings of desire, de Win Wenders. 

Felicidade

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
(Vicente de Carvalho)

domingo, 24 de janeiro de 2016

era só uma passagem...


Aniversário de 70 anos de Alice Ruiz, que teve em sua vida a passagem do bendito poeta polaco curitibano, Paulo Leminski.

"quem ri quando goza, é poesia
até quando é prosa."
A.R.

"Folha seca sobre o travesseiro,
acorda borboleta!"
A.R.

"Que importa o sentido
se tudo vibra..."
A.R.

...  era só uma passagem...

contemplação...


Jazigo de Mathilde Fomm (1860-1922), Cemitério da Consolação.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Dum spiro spero!


Palácio da energia elétrica e torre de água: um monumento à era da ciência. Paris, 1900.


Otimismo e Pessimismo Sobre o Século XX e Muitas Outras Coisas

Dum spiro spero! [Enquanto há vida, há esperança!] ... Se eu fosse um dos corpos celestiais, eu olharia com completo desapego para esta bola miserável de sujeira e poeira ... Eu brilharia indiferente entre o bem e o mal ... Mas eu sou um homem. A história do mundo que para você, desapaixonado cálice de ciência, para você, guarda-livros da eternidade, parece apenas um momento insignificante no equilíbrio temporal, para mim é tudo! Enquanto eu respirar, eu lutarei pelo futuro, este radiante futuro no qual o homem, poderoso e belo, se tornará mestre do fluxo incerto da História e irá direcioná-lo para um horizonte sem fim de beleza, alegria e felicidade!
O século dezenove de muitas formas satisfez e de ainda mais formas enganou as esperanças do otimista ... Ele o compeliu a transferir a maioria das suas esperanças para o século vinte. Sempre que o otimista se confrontava com um fato de atrocidade, ele exclamava: Como pode isso acontecer no limiar do século vinte! Quando ele imaginasse maravilhosamente desenhado um futuro harmonioso, ele o colocava no século vinte.
E agora este século chegou! O que trouxe com ele em sua inauguração?
Na França – o escarcéu venenoso do ódio racial; na Áustria – disputa nacionalista...; na África do Sul – a agonia de um povo pequeno, que está sendo assassinado por um colosso; na própria “ilha da liberdade” – o canto triunfante da vitoriosa avareza de agiotas chauvinistas; dramáticas “complicações” no leste; rebeliões de massas populares famintas na Itália, Bulgária, Romênia ... ódio e morte, fome e sangue ...
Parece até que o novo século, este gigante recém-chegado, está determinado mesmo no momento do seu surgimento a levar o otimista ao absoluto pessimismo e a um nirvana cívico.
– Morte à Utopia! Morte à fé! Morte ao amor! Morte à esperança! Esbraveja o século vinte em salvas de fogo e ao retumbar das armas.
– Renda-se seu patético sonhador. Aqui estou eu, o seu tão esperado século vinte, o seu “futuro”.
      Não, responde o inabalado otimista: Você, você é apenas o presente.

Trecho de um texto escrito em 1901, pelo jovem Leon Trotsky, reimpresso como introdução à primeira edição da revista Revolutionary Regroupment. Ele simboliza a determinação da revista em ser bem sucedida no seu esforço e na sua confiança fundamental na capacidade da classe trabalhadora de quebrar as correntes de opressão e inaugurar um novo capítulo na história da humanidade.

Tradução de Rodolfo Kaleb e Leandro Torres em 2011. Disponível em:
Acesso em: 04 Dez 2015.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

pena plena...

Como se acaba um poema?
Perguntou a alma
à pena.
Sem intenção,
respondeu
a página em branco.
Quando pena
se deposita
sobre pena
página
e alma
estão plenas.

(Alice Ruiz)